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05/11/2012 11:06

Rafael Mandagaran Gallo

Taxa Libor e crise financeira: a hegemonia da cegueira?

No início de Julho de 2012, a taxa de juros Libor (London inter-bank offered rate) foi alvo dos noticiários econômicos. Em pleno debate sobre os possíveis rumos econômico-políticos da Europa, capitaneada pela análise da situação dos “PIIGS” (acrônimo de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) a manipulação da taxa Libor não foi, porém, apreendida em todo seu significado. Apesar do tom de repúdio noticiado, dois aspectos do ocorrido sequer foram comentados: o risco da centralidade dos bancos internacionais na economia globalizada - e por consequência política - e a insustentável permanência da ideologia neoliberal como elemento legitimador da organização hierárquica do sistema internacional.

Até então, a crise na Europa vem sendo caracterizada como o resultado de políticas macroeconômicas nacionais “ineficientes”, pois se mostraram inócuas no controle ou na redução do “gasto público”, assim como “insuficientes” para a solução de “problemas previdenciários”. Curiosamente, a credibilidade - parâmetro da dinâmica de funcionamento do sistema financeiro internacional – do mercado na capacidade de pagamento de títulos da dívida pública por parte dos países europeus em questão foi o ponto mais enfatizado, o que ficou bem exemplificado no caso grego: o “calote” era iminente.

No entanto, quando nos voltamos para o “escândalo” da taxa Libor – segundo o Financial Times – a importância da “credibilidade” no sistema financeiro toma outro significado. A manipulação da taxa por parte do Barclay’s é grave, porém, “não muito”. De Julho para Outubro, pouca coisa mudou: apenas alguns detalhes para “acalmar o mercado” (a personificação de culpados entre outras coisas). Mas a lógica permanece inalterada. Como taxa de referência para diversas operações no mercado internacional (estima-se que seja base de transações financeiras que totalizam US$ 800 trilhões), o banco Barclay’s criou valor nas suas previsões da taxa entre 2005 e 2007, aumentando a margem de lucro das operações, como em um “passe de mágica”, por meio da superestimação da Libor.

Por mais que a atitude do Barclay’s seja combatida e criticada no âmbito do mercado financeiro, contudo, ela não é relacionada com a crise financeira de 2008-2009 nos Estados Unidos. Ambas são tratadas como fenômenos isolados e não como partes de um mesmo processo. A lógica é a mesma: criação de valor por base de atribuições arbitrárias no preço real de títulos de crédito, que, no caso dos EUA resultou, entre outras coisas, no estouro da bolha imobiliária, ocasionando a quebra de instituições financeiras e perda de recursos de várias famílias estadunidenses. A crise só ganhou a expressão que teve por afetar, em grande parte, a classe média.

Percebemos que a atuação irresponsável no intuito de auferir maior lucro é algo recorrente no setor financeiro internacional. Como fica a questão da credibilidade desses bancos e das agências classificadoras? Inalterada. Permanecem atuando como artífices do “milagre financeiro” do “dinheiro produzindo dinheiro”. O papel de centralidade dos bancos internacionais os leva a uma posição de poder e de barganha que coloca em xeque qualquer jurisdição nacional de controle. O caso dos EUA é o mais significativo: frequentemente, os secretários do tesouro estadunidenses são ex-CEOs dos principais bancos de Wall Street.

Esse esquecimento dos dois fatos, a crise dos EUA de 2008-9 e a manipulação da taxa Libor, não é um algo inocente: representa o buraco negro da ideologia neoliberal, caracterizada pelo conjunto de ideias que tentam dar legitimidade e defender o fluxo contínuo e desimpedido do capital financeiro pelos diversos mercados nacionais, com margens de lucro cada vez maiores, não importando o custo para se obtê-las. A tão cara “credibilidade” que ora é utilizada de forma rígida como parâmetro condenatório para criticar os Estados que não conseguem pagar seus títulos de dívida, cujos credores em grande parte são bancos internacionais, em outro momento se torna “ambivalente” quando se refere à atuação fraudulenta das instituições financeiras internacionais. Tais eventos nos mostram que a ideologia neoliberal está caduca. Não há a menor possibilidade de se sustentar como argumento frente aos desdobramentos contemporâneos. Mesmo assim, continua sendo empregada e utilizada nas sociedades contemporâneas. Seria uma ideologia hegemônica? Não, a nossa cegueira é que é dominante pelo fato de não refutarmos com maior veemência justificativas para a manutenção de relações de poder.  

 

 


[1] Sociólogo político e Analista de Relações Internacionais.

 

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